07/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 07/01/2019 10:48 -02

Quando quitutes se transformam em sustento: A história de Lúcia Batista

Ela começou a fazer doces e salgados para vender e sonha em expandir negócio: “Quero dar oportunidade para outras mulheres. Uma ajuda a outra."

Lúcia Batista é a 307ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Lúcia Batista é a 307ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Tinha o hábito de usar uma unidade de contagem diferente: era em número de salgados. Para conseguir levar os filhos para a final do campeonato de futebol, por exemplo, foram necessárias onze esfihas. Nunca tinha feito isso na vida. O marido estava afastado do emprego e na véspera do jogo se viu em casa sem ter dinheiro nenhum para levar os garotos à partida. Os meninos já chateados que não poderiam participar da disputa e a mãe resolveu distrair um pouco a cabeça. "Quando você está muito nervosa tem que se ocupar porque a mente não funciona", conta Lúcia Batista, 48 anos, então dona de casa, mas hoje à frente da Mimos de Lúcia. Foi encerar a casa e viu na televisão um programa de culinária que mostrava a receita de uma esfiha para quem queria ganhar dinheiro. Parou por um instante para ver.

A mente funcionou. Olhou na geladeira e tinha exatamente todos os ingredientes necessários. "Nem mais, nem menos. Era exatamente o que precisava. Começou aquele cheiro bom, inclusive fiz essas esfihas hoje para vocês provarem, e os vizinhos começaram a perguntar o que era e eu falei que estava vendendo esfiha a partir daquele dia. Vendi as 11 esfihas bem rapidinho e aí não parei nunca mais". Arrecadou o dinheiro necessário para levar os meninos à final do campeonato. "Conseguiram ir e foram campeões, invictos. Falei que esse campeonato tinha gosto de esfiha [risos]".

Minha vida é essa, fazer a festa dos outros, fazer os outros felizes.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Aos 48 anos, Lúcia, a então dona de casa, criou sua própria empresa de doces e salgados: Mimos de Lúcia.

Daí em diante, muitas outras conquistas em sua vida e na de sua família tiveram esse gostinho. E não só de esfiha não. Muita coisa teve gosto de coxinha, brigadeiro, ovo de páscoa, bolo, docinhos diversos. A contagem continuou essa por muito tempo, aliás. "Fui ajudando meu filho mais velho a pagar a faculdade e eu não contabilizava o dinheiro, pensava em quantas coxinhas eu tinha que vender para pagar a mensalidade daquele mês. Foi assim". No início, Lúcia cozinhava para amigos, familiares. As pessoas levavam os ingredientes, ela cobrava um valor simbólico e foi conseguindo um dinheiro. Com o tempo foi aprendeu novas receitas e foram os salgados e doces que seguraram a família. São quatro filhos – três biológicos e um adotivo – e sete netos. Todos morando no mesmo terreno, cada um com seu espaço que Lúcia conseguiu construir – graças aos seus salgados.

E a atividade que parecia um quebra-galho foi virando profissão de fato. "Esse dinheiro dos salgados resolveu a situação aqui. As pessoas que vinham comprar encomendavam para festa e as coisas foram melhorando e foi tudo pela família. Comecei pela família, meu trabalho é para famílias porque as pessoas vêm para fazer festas para filho, mãe, netos. Gosto muito do que eu faço". E dá para perceber. Lúcia fala com muito carinho das clientes cativas, dos retornos e das mensagens que recebe. "Falam muito do gosto dos bolos e o fato dos salgados terem sabor e não serem oleoso, serem sequinho. Dizem que o bolo é leve, que dá vontade de comer mais, mas não fica cheio. Falam que eu devo gostar muito do que eu faço porque é muito bom".

Falam que eu devo gostar muito do que eu faço porque é muito bom.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Coxinha, brigadeiro, ovo de páscoa, bolo, docinhos diversos estão no cardápio da "Mimos de Lúcia".

Mostra, orgulhosa, algumas dessas mensagens e exibe também com orgulho o quadro de planejamento semanal lotado de pedido. "Minha vida é essa, fazer a festa dos outros, fazer os outros felizes. Não vendo só um bolo e um salgado, vendo uma satisfação, a felicidade daquela pessoa. Isso faz diferença". Tanto que realmente profissionalizou a coisa. Hoje, inclusive, o marido trabalha junto com ela e ajuda nas compras, entregas, frita salgados, faz o que precisa. Mas por muito tempo Lúcia fazia tudo de forma muito instintiva, sem grandes análises financeiras. O importante era conseguir pagar as contas e seguir vendendo seus quitutes. No entanto, percebeu que às vezes era muito difícil. Trabalhava muito e parecia que não sobrava muito dinheiro. Achou que estava fazendo algo errado, ficou desanimada.

Mas logo o foco voltou e iniciou um programa de assessoria no Consulado da Mulher, instituto que presta esse tipo de ajuda para empreendimentos populares liderados por mulheres. As coisas começaram a mudar. "Hoje enxergo como um negócio mesmo. Foram dois anos de assessoria e muita coisa mudou. Vi que desperdiçava dinheiro, a cliente levava um bolo maior do que o que tinha pagado porque eu não pesava nada, ia tudo no olho. Adequei tudo, aprendi a fazer as contas certas e não perdi clientes, as pessoas gostam do nosso produto e continuam aí".

Após a consultoria, a coisa ficou bem organizada. Virou empresa. Com nome e tudo. A Mimos de Lúcia passou a conseguir pagar bem ajudantes, investiu em equipamentos, novas ideias. "Não aprendi só a vender produtos, mas também a me valorizar e isso é impressionante. Quando as mulheres se reconhecem e veem seu valor, veem do que são capazes, isso não sai mais de você. Arranjaram essa de empoderamento e você se sente a poderosa. Na verdade, você não se sente não, você é".

Quando as mulheres se reconhecem e veem seu valor, isso não sai mais de você.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"É um sonho que tenho certeza de que vou realizar ainda, mas não é barato."

Lúcia sabe bem disso. Foram muitas noites em claro enrolando doce, se dividindo entre a produção e os estudos para conseguir crescer. Mas vê que valeu a pena. "Não é um trabalho fácil, você não vai nas festas de família, chego só depois do parabéns, mas hoje consigo administrar melhor essa parte, tenho gente que me ajuda e vi que podia ajudar outras pessoas também com o meu negócio... minha nora, minha cunhada, meu sobrinho que fazia umas entregas, a loja onde compramos o material descartável. Olha como somos pequenos, mas quanta gente que ajudamos! A economia é ajudada com pequenos empreendedores como a gente."

Mesmo antes de ter toda essa consciência do que seu negócio era, já estava de olho no que podia fazer para melhorar e foi quando decidiu que precisava de um carro para poder agilizar as entregas e expandir a área de atuação. Moradora da Vila Missionária desde que veio do Ceará para São Paulo, aos 5 anos de idade, as encomendas ficavam mais focadas no bairro mesmo. Até que deu esse salto. "Um dia falei para o marido que precisava de um carro. As pessoas querem comodidade e é um diferencial. Aí fiz a conta de quantas coxinhas eu ia fazer para pagar a prestação de um carro. Eu tinha certeza de que dava para fazer e assim fomos. Trabalhamos com esse carro até hoje e começamos a pegar encomendas para lugares mais distantes, já faz quase 9 anos. Está na hora de trocar".

Tenho um projeto de uma loja com espaço para produzir e quero dar oportunidade para outras mulheres.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Mostra, orgulhosa, algumas dessas mensagens e exibe também com orgulho o quadro de planejamento semanal lotado de pedidos.

Além disso, a troca do carro não é o único plano que Lúcia tem para o futuro. Agora estruturada e segura de seu negócio, concluiu que a cozinha de sua casa já ficou pequena para eles. Na verdade, nem existe uma cozinha para a família. O espaço é todo destinado para a empresa. "Esse ano de 2019 é o ano divisor de águas. Está na hora de cuidar dos meus sonhos. Já falei que não quero mais a cozinha de casa, passou da hora de sair daqui. Quero um espaço fora. Tenho um projeto de uma loja para as pessoas comerem no local e ter um espaço para produzir, e quero dar oportunidade para outras mulheres, principalmente quem tem crianças pequenas e não conseguem outros trabalhos".

Ela lembra que quando precisou de ajuda, as mulheres que estavam com ela na cozinha eram assim. "A gente dava um jeito aqui em casa, uma cuidava das crianças e as outras me ajudavam na cozinha e depois trocava. Uma ajuda a outra e acho que tem muito a ver com isso. Ainda quero um espaço para ensinar a fazer. É um sonho que tenho certeza de que vou realizar ainda, mas não é barato".

Mas sabe exatamente do que precisa. Dessa vez, o cálculo não é mais em salgado. "Agora já não meço mais em coxinha! Sei de quanto eu preciso e sei que a cartela de clientes que eu tenho possibilita isso". A unidade de contagem pode ter mudado. Mas pode ter certeza de que a conquista vai continuar com o mesmo gostinho. Para a sorte de quem pode provar.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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