09/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 09/01/2019 12:40 -02

A luta pelo impossível e a persistência de Helenice Gama

A psicóloga e mãe de três -- um deles com Síndrome de Down -- nunca aceitou o não como resposta e faz da vida um caminho de novos possíveis.

Helenice Gama é a 308ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Helenice Gama é a 308ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Para Helenice Gama Dias de Lima, 75, o impossível não existe. Se escuta um "não" como resposta, procura outro caminho, outra solução. E o fez quando disseram que não poderia ter uma profissão, ou que teria limitações por ter um filho portador de Síndrome de Down, ou que seu filho mais velho não sobreviveria à um grave acidente ou até que não conseguiria mudar o sistema de acolhimento às famílias no processo judiciário em casos como o dele. E foi assim. Ela buscou caminhos e foi de encontro ao possível e derrubou barreiras. O segredo, segundo ela, é seguir mesmo quando os desafios insistem em aparecer.

Helenice cresceu em Uberaba (MG) e desde cedo sabia que escolher o próprio caminho seria um desafio. Matava aulas de piano para fazer natação e seus pais só descobriram quando foi chamada para disputar o campeonato mineiro -- e chegou até a ser campeã no brasileiro. Mas ela não parou por aí. Em uma época em que poucas mulheres entravam em uma Universidade, ela decidiu que aquele seria também o seu lugar, independente da resistência de seus familiares.

Eu sempre tive muita certeza do que eu quero, do que eu gosto e do que queria fazer. Isso me ajudou a vencer os desafios.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"Sempre me relacionei muito bem comigo mesma e entendi que era preciso ter coragem."

"Sempre fui muito determinada. Nunca me passou pela cabeça fazer outra coisa. Eu queria ser psicóloga, queria ajudar as pessoas. Quando eu via, estava sempre intermediando uma discussão. Mas a minha família era muito rígida, sair do interior e ir pra capital não era bem visto, as mulheres ficavam 'faladas', foi um desafio achar uma saída", conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

Mas foi só depois de saber que uma de suas primas estava indo morar com o marido em Brasília (DF), que conseguiu convencer seus pais de que ela também poderia fazer a mesma coisa -- e que era um caminho que ela certamente poderia seguir. Quando entrou nos corredores da UnB (Universidade de Brasília) a primeira coisa que sentiu foi frio na barriga. "Lembro de não conseguir nem encontrar as salas! Eu era uma pessoa muito tímida, mas sempre me relacionei muito bem comigo mesma e entendi que era preciso ter coragem", aponta.

Já formada, começou a trabalhar no Juizado de Menores de Brasília. "Arrumei meu currículo -- que era pequeno, de uma folhinha só --, e marquei com o diretor. Cheguei e acabei também me apaixonando por quem hoje é meu marido", conta. Lá, ela trabalhou com menores infratores e, posteriormente, em casos de adoção -- em especial, no atendimento a mães que desejavam dar seus bebês para adoção. "Foi uma fase muito difícil e desafiadora. Acho que gosto de situações difíceis e complicadas. Isso faz com que a gente tenha determinação e foco."

Quando eu me vejo numa situação difícil, costumo parar, respirar e encontrar o foco.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, mesmo aposentada e com a conta de muitas batalhas ganhas, Helenice não para.

Para Helenice, se a solução não estava em um caminho, vinha por outro. E isso sempre esteve presente em sua vida. Ainda em Uberaba (MG), ela conseguiu com que uma comunidade participasse de uma arrecadação para construir um novo espaço na escola em que trabalhava à época. Mais tarde, quando trabalhou no Tribunal de Justiça do Distrito Federal com processos de separação, conseguiu alterar o modelo de atendimento para dar acolhimento e conciliação aos casais. "Conseguimos criar uma metodologia e fazer uma especialização jurídica. Ainda que primeira resposta tenha sido 'não' eu acreditei em um possível diferente. Não foi tão simples, mas essa luta, o trabalho todo, também nos dá força pra seguir em frente. E até hoje o que eu deixei por lá funciona", comenta.

Eu acredito no possível, o impossível pra mim não existe. E isso me ajudou a enfrentar situações difíceis tanto no trabalho quanto com meus filhos.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"Quando tá muito difícil, eu respiro fundo e vou."

A maternidade também trouxe a certeza no possível para ela. Em 1983, depois de ter o primeiro filho e de perder uma menina no sexto mês de gestação, nasceram os gêmeos Marcelo e Ana Flávia. Ela conta que, quando deu a luz, ficou preocupada ao perceber que o menino demorou para voltar ao quarto. "Eu ficava perguntando onde ele estava e quando o médico chegou, me deu a notícia da pior forma: 'ele tem um problemazinho, ele é Down'", lembra. Ela logo descobriu que o filho tinha nascido também com problema grave no coração e que precisaria passar por uma operação. E foi aí que começou uma batalha em busca de médicos para o filho que estava debilitado, e em menos de um ano teve 11 pneumonias.

Mas a solução sempre tão buscada por Helenice chegou até ela. Certa tarde, estava em um parquinho próximo à sua casa com as crianças e compartilhou os problemas de saúde de seu filho com uma vizinha. Ela disse que tinha uma amiga de uma amiga que conhecia um médico em São Paulo que poderia ajudar. Ligou para a clínica e no mesmo dia havia uma desistência. Foi aí que Helenice pegou um avião e foi direto para lá. Marcelo chegou a ser internado pra ser operado, mas mais uma pneumonia o impediu. A cirurgia pôde ser realizada só um mês depois. "Nunca achei que não ia dar certo. Não podia dar errado. Quando está muito difícil, eu respiro fundo e vou".

Eu não acredito em milagre, mas nessa força dentro da gente que faz a gente construir algo novo.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Como a psicóloga aprendeu, a vida sempre traz surpresas e desafios para além do controle.

Para conseguir fazer com que o filho tivesse a mesma oportunidade que outras crianças, precisou quebrar barreiras. "Foi uma batalha, queria que ele estudasse em uma escola normal, que sabia que era o melhor pra ele. Fui em muitas e nenhuma aceitava. Tem que lutar o tempo todo. Eu sempre ia na conversa, levava pro lado humano, não desistia", lembra. Hoje, Marcelo, com 35 anos, tem sua independência "dentro do possível dele", como diz Helenice.

Como a psicóloga aprendeu, a vida sempre traz surpresas e desafios para além do controle. O filho mais velho, José Maurício, hoje com 38 anos, sofreu um grave acidente de carro aos 19 anos. Os dois amigos que estavam no veículo faleceram e ele ficou em estado grave. "Os médicos disseram que mesmo se ele sobrevivesse, não teria uma vida normal. Eu me isolei, não conversava com ninguém, só pensava: ele vai voltar. E conversava com ele: 'você é corajoso, você tem força'. Até que 27 dias depois ele acordou, sem sequelas. Nunca acreditei em milagres. Acreditava nele."

Hoje, mesmo aposentada e com a conta de muitas batalhas ganhas, Helenice não para. Cuida muito bem de si mesma. Faz exercícios cinco vezes por semana e se divide entre natação, pilates e academia. Recentemente, fez um curso de equilíbrio emocional e em março de 2019 deve ir a Boston, nos Estados Unidos, para fazer outro sobre terapia familiar. "A gente não pode fugir da gente mesma, se eu ainda tenho essa energia e acho que ainda posso contribuir é importante passar isso pra outras mulheres. Não é porque eu tenho 75 anos eu vou ficar em casa e de pijama, de forma alguma! A gente tem que buscar o nosso potencial."

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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